Política Visual

É urgente que escrevamos sobre as imagens que queremos ver no mundo.

É urgente falar, pesquisar, referenciar, citar e escrever sobre a arte que nos atravessa.
Cansada das referências ocidentais e/ou brancas de sempre, passei a empreender uma busca por artistas que fugissem desse quadro. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar pouquíssimo material sobre várias delas. Surpresa? Por que a surpresa, Anita? É simples: quando não há quem escreva sobre, não há escrito. E quando não há escrito, bom, não há registro, não há memória, nem crítica. Não há visibilidade. Ou seja: se não há escrito, não há visibilidade, e se não há visibilidade, não há escrito. Entende como esse jogo é complexo e perverso?
Motivada por essa busca me deparei com o livro “Art On My Mind: Visual Politics” (“Arte Na Minha Mente: Política Visual”) de bell hooks e, é claro que, essa educadora, feminista, ativista e crítica cultural tem coisas importantes a dizer sobre o assunto.
bell hooks nos lembra como é possível admirar e nos deixar atravessar por um trabalho, ao mesmo tempo em que fazemos uma crítica rigorosa quanto ao quadro institucional através do qual o trabalho deste grupo é mais valorizado do que de outros grupos da sociedade.

“Infelizmente, artistas e críticos brancos e conservadores, que controlam a produção cultural da crítica de arte, parecem ter uma grande dificuldade em aceitar que é possível ser criticamente consciente da política visual — a maneira como raça, gênero e classe social moldam as práticas artísticas (quem faz arte, como é vendida, quem a precifica, quem escreve sobre) — sem abandonar um forte comprometimento com a estética.”

É importante nos atermos ao fato de que o mundo das artes foi construído através de políticas de supremacia branca, do capitalismo e do patriarcado.

“Políticas patriarcais no campo visual frequentemente garantem que trabalhos realizados por homens poderosos, incluindo homens não-brancos, recebam mais atenção e tenham mais voz do que trabalhos realizados por mulheres. Enquanto pensadoras feministas, de todas as etnias, têm feito intervenções críticas fervorosas para desafiar o mundo da arte e as práticas artísticas, muitos de seus inovadores trabalhos são usados, mas não citados, por homens.”

Para que consigamos mudar esse sistema precisamos modificar nossas condutas. A começar pelo direcionamento de energia e tempo:

“A maioria dos críticos de arte escreve sobre trabalhos que os atravessam profundamente. A natureza arbitrária de nossas escolhas me impressionou quando selecionei trabalhos para escrever sobre, para essa coleção. Duas das minhas obras de arte favoritas são de artistas homens brancos, Leon Golub e John Baldessari. Eu escolhi não escrever sobre essas obras desta vez, porque o trabalho desses dois artistas já tem recebido muitas críticas e atenção. Isso não significa que escrever sobre este trabalho sob a minha perspectiva não acrescentaria ao corpo de trabalho crítico que já existe; isto significa apenas que o uso do tempo, as escolhas que fazemos em relação ao que pensar e escrever sobre, fazem parte da política visual. Tenho esperança de que os ensaios incluídos aqui, em conjunto com o trabalho de outros críticos progressistas, representem atos de resistência crítica que, de fato, introduzam mudanças dentro da política visual existente. Conforme imaginamos criticamente novas maneiras de pensar e escrever sobre as artes visuais, à medida que criamos espaços para o diálogo além das fronteiras, nos envolvemos em um processo de transformação cultural que criará uma revolução na visão.”

Para que consigamos povoar mentes e corações precisamos povoar mentes e corações.

Referência:
HOOKS, bell. Introduction: Art Matters. In: HOOKS, bell. Art On My Mind. New York: The New Press, 1995.
(todos os trechos do livro de bell hooks foram traduzidos livremente)

OBSCENA

l’e origine du monde GUSTAVE COURBET
bobby masturbating NAN GOLDIN
diamanda galás ANNIE LEIBOVITZ
self-portrait FRANCESCA WOODMAN
untitled FRANCESCA WOODMAN
i could no longer play FRANCESCA WOODMAN
untitled #263 CINDY SHERMAN
untitled #335 CINDY SHERMAN
las piedras jamás CRISTINA DE MIDDEL
gentleman’s club CRISTINA DE MIDDEL
jimmy paulette and tabboo in the bathroom NAN GOLDIN
piotr taking his aids medication NAN GOLDIN
heart shaped bruise NAN GOLDIN
nan one month after being battered NAN GOLDIN

“Discutir a natureza e o sentido de obscenidade é quase tão difícil quanto falar de Deus” (MILLER apud CARLOS e D’AGORD). A palavra latina obscena é uma corruptela do vocábulo scena e seu significado literal é “fora de cena”. A obscenidade pode ser entendida como trazer para a cena algo que deveria estar (se está) fora dela. É transgredir. O obsceno tem a ver com o que não pode ser mostrado, com o que não pode ser falado — porém é sempre importante nos questionarmos: O que, e porque, não pode ser mostrado? Não pode ser mostrado/falado por quem/para quem? O obsceno funciona a partir da dialética do mostrar-ocultar, ou melhor, do ocultado-mostrado. É o desaparecimento-aparecimento seguido, novamente, do desaparecimento, afinal, o obsceno é o que se olha e, logo em seguida, faz virar o rosto — Quem vira o rosto?
O sexo per se não é obsceno, a morte também não. O real em estado bruto não é obsceno, para que algo seja considerado obsceno esse algo deve ser colocado diante de um indivíduo, revelado, através de uma voluntariedade artística ou comercial.

“O objeto ao ser desvelado, traz consigo o horror, uma vez que o olhar implica o desaparecimento do sujeito na cegueira. Um puro gozo está implicado diante do que não se pode ver. Isso ocorre quando o véu, o anteparo cai, como se o que deveria ficar fora da cena estivesse então presentificado. Logo o olhar que desvela o objeto é obsceno por colocar em cena o que ali não poderia estar, como ocorreu com Édipo, ao ver seus próprios olhos refletidos no chão” (CARLOS E D’AGORD). 

Alguns artistas exibem o que o espectador não consegue ver, se nega a ver, porém, ao mesmo tempo, tem prazer de ver. “Aquilo que nos dá acesso o artista é o lugar do que não pode ser visto” (LACAN apud CARLOS e D’AGORD). Fazendo com que, de alguma maneira, artista, obsceno e arte se complementem: o artista exibe o que é retirado de cena, o obsceno faz-se ver, força o olhar, enquanto a arte evoca e faz-se questionar.
Ao oferecer ao olhar o que não pode ser visto, o obsceno é um intermediário entre o real inacessível e a representação. É realidade e imaginação (ficção?), assim como a fotografia.

pas pu saisir la mort (1) SOPHIE CALLE

Referência:
CARLOS, Flávia Pinhal de; D’AGORD, Marta Regina de Leão. O lugar obsceno do suicídio. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, abr. 2016.