“Discutir a natureza e o sentido de obscenidade é quase tão difícil quanto falar de Deus” (MILLER apud CARLOS e D’AGORD). A palavra latina obscena é uma corruptela do vocábulo scena e seu significado literal é “fora de cena”. A obscenidade pode ser entendida como trazer para a cena algo que deveria estar (se está) fora dela. É transgredir. O obsceno tem a ver com o que não pode ser mostrado, com o que não pode ser falado — porém é sempre importante nos questionarmos: O que, e porque, não pode ser mostrado? Não pode ser mostrado/falado por quem/para quem? O obsceno funciona a partir da dialética do mostrar-ocultar, ou melhor, do ocultado-mostrado. É o desaparecimento-aparecimento seguido, novamente, do desaparecimento, afinal, o obsceno é o que se olha e, logo em seguida, faz virar o rosto — Quem vira o rosto?
O sexo per se não é obsceno, a morte também não. O real em estado bruto não é obsceno, para que algo seja considerado obsceno esse algo deve ser colocado diante de um indivíduo, revelado, através de uma voluntariedade artística ou comercial.
“O objeto ao ser desvelado, traz consigo o horror, uma vez que o olhar implica o desaparecimento do sujeito na cegueira. Um puro gozo está implicado diante do que não se pode ver. Isso ocorre quando o véu, o anteparo cai, como se o que deveria ficar fora da cena estivesse então presentificado. Logo o olhar que desvela o objeto é obsceno por colocar em cena o que ali não poderia estar, como ocorreu com Édipo, ao ver seus próprios olhos refletidos no chão” (CARLOS E D’AGORD).
Alguns artistas exibem o que o espectador não consegue ver, se nega a ver, porém, ao mesmo tempo, tem prazer de ver. “Aquilo que nos dá acesso o artista é o lugar do que não pode ser visto” (LACAN apud CARLOS e D’AGORD). Fazendo com que, de alguma maneira, artista, obsceno e arte se complementem: o artista exibe o que é retirado de cena, o obsceno faz-se ver, força o olhar, enquanto a arte evoca e faz-se questionar.
Ao oferecer ao olhar o que não pode ser visto, o obsceno é um intermediário entre o real inacessível e a representação. É realidade e imaginação (ficção?), assim como a fotografia.

pas pu saisir la mort (1) SOPHIE CALLE
Referência:
CARLOS, Flávia Pinhal de; D’AGORD, Marta Regina de Leão. O lugar obsceno do suicídio. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, abr. 2016.














