OBSCENA

l’e origine du monde GUSTAVE COURBET
bobby masturbating NAN GOLDIN
diamanda galás ANNIE LEIBOVITZ
self-portrait FRANCESCA WOODMAN
untitled FRANCESCA WOODMAN
i could no longer play FRANCESCA WOODMAN
untitled #263 CINDY SHERMAN
untitled #335 CINDY SHERMAN
las piedras jamás CRISTINA DE MIDDEL
gentleman’s club CRISTINA DE MIDDEL
jimmy paulette and tabboo in the bathroom NAN GOLDIN
piotr taking his aids medication NAN GOLDIN
heart shaped bruise NAN GOLDIN
nan one month after being battered NAN GOLDIN

“Discutir a natureza e o sentido de obscenidade é quase tão difícil quanto falar de Deus” (MILLER apud CARLOS e D’AGORD). A palavra latina obscena é uma corruptela do vocábulo scena e seu significado literal é “fora de cena”. A obscenidade pode ser entendida como trazer para a cena algo que deveria estar (se está) fora dela. É transgredir. O obsceno tem a ver com o que não pode ser mostrado, com o que não pode ser falado — porém é sempre importante nos questionarmos: O que, e porque, não pode ser mostrado? Não pode ser mostrado/falado por quem/para quem? O obsceno funciona a partir da dialética do mostrar-ocultar, ou melhor, do ocultado-mostrado. É o desaparecimento-aparecimento seguido, novamente, do desaparecimento, afinal, o obsceno é o que se olha e, logo em seguida, faz virar o rosto — Quem vira o rosto?
O sexo per se não é obsceno, a morte também não. O real em estado bruto não é obsceno, para que algo seja considerado obsceno esse algo deve ser colocado diante de um indivíduo, revelado, através de uma voluntariedade artística ou comercial.

“O objeto ao ser desvelado, traz consigo o horror, uma vez que o olhar implica o desaparecimento do sujeito na cegueira. Um puro gozo está implicado diante do que não se pode ver. Isso ocorre quando o véu, o anteparo cai, como se o que deveria ficar fora da cena estivesse então presentificado. Logo o olhar que desvela o objeto é obsceno por colocar em cena o que ali não poderia estar, como ocorreu com Édipo, ao ver seus próprios olhos refletidos no chão” (CARLOS E D’AGORD). 

Alguns artistas exibem o que o espectador não consegue ver, se nega a ver, porém, ao mesmo tempo, tem prazer de ver. “Aquilo que nos dá acesso o artista é o lugar do que não pode ser visto” (LACAN apud CARLOS e D’AGORD). Fazendo com que, de alguma maneira, artista, obsceno e arte se complementem: o artista exibe o que é retirado de cena, o obsceno faz-se ver, força o olhar, enquanto a arte evoca e faz-se questionar.
Ao oferecer ao olhar o que não pode ser visto, o obsceno é um intermediário entre o real inacessível e a representação. É realidade e imaginação (ficção?), assim como a fotografia.

pas pu saisir la mort (1) SOPHIE CALLE

Referência:
CARLOS, Flávia Pinhal de; D’AGORD, Marta Regina de Leão. O lugar obsceno do suicídio. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, abr. 2016.

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