Mas não é o seu caso, ela me disse enfiando o brócolis na boca.
Era mais um daqueles dias em que comíamos o que tinha na geladeira. Brócolis, broto de feijão, arroz e um filé de frango mal temperado. Entre uma garfada e outra falávamos da sorte que é trabalhar com o que se gosta.
Ela professora universitária há mais tempo do que se pode contar nos dedos das mãos e dos pés. Eu, bom, eu entre um croc e outro do broto de feijão pensando na minha trajetória. Croc. Sexta série brilhante. Croc. Segundo colegial nem tanto. Croc. Primeira faculdade. Croc. Segunda faculdade. Croc. Terceira faculdade. Croc. Todas não concluídas. Croc, croc, croc. Será realmente um traço da minha geração? Começar as coisas e não concluí-las? Caso seja, consigo mapear duas possibilidades: falta de persistência ou insatisfação. Será a insatisfação um traço da minha geração? Não contenta-se com um e logo corre os olhos em busca de outro, esse sim o suprassumo do desejo. Eu queria trabalhar com o que gosto. Trabalhe com o que gosta, o faça bem, seja feliz e ainda ganhe dinheiro. Meritocracia pesada. E na melhor das hipóteses: trabalhe com o que gosta e trabalhe todos os dias da sua vida. Parece realmente uma cilada do capitalismo. Esses coaches neoliberais. Croc.
Mas nem todo mundo tem esse privilégio de trabalhar com o que gosta e ainda conseguir ganhar dinheiro, tem gente que passa uma vida toda em busca dessa tríade desejo-trabalho-dinheiro e, mesmo assim, não consegue, disse com o filé de frango na boca olhando para o espaço entre a garrafa d’água e sua cabeça. Acho que é nesse momento que ela percebe minha cara de desolação e trata de adiantar-se: mas não é o seu caso, filha. É claro que não é o meu caso! Eu só tenho 24 anos!

várias e várias vezes paro pra pensar em como as coisas são faladas em belo horizonte. logo que cheguei achei curioso a ausência do pronome reflexivo: “ah, fulana forma em 2015”. e o que mais me chamou a atenção foi o “apaixonar”. porque além da pessoa “apaixonar” — e não se apaixonar — a pessoa “apaixonava com” outra pessoa — e não por outra pessoa: “ai, ela é apaixonada com ele”. coisinha mais bonitinha. é tão mais perto.
o “aqui” também me chamou atenção. talvez contração de “olhe aqui”, o aqui é usado a todo momento: “aqui, vamo lá comigo?”. “aqui, preciso falar com você”. pertinho de novo. e pensando bem, o mineiro gosta de tudo que é mais pertinho mesmo, as palavras todas juntinhas, corta sílaba de lá, corta sílaba de cá, junta uma na outra: “tava aqui pensanocê”.
e até no “arreda” você se sente mais perto do que se te falassem “vai pra lá um pouquinho”. eu sinto como se estivesse num daqueles banquinhos de madeira bem compridos, sentada com cinco amigos, tendo que abrir espaço pra caber mais um: “arreda um pouquinho”, e aí a gente arreda, na verdade, é pra ficar ainda mais amontoado. mais pertinho.
ontem, enquanto tomava banho, me lembrei dessas pequenas diferenças no modo de falar que, pra mim, mudam tudo. fiquei com medo de esquecer como se fala o mineirês. de esquecer como é subir bahia e descer floresta.

 “uma mulher que começou a escrever, na sala de espera”
eu sempre tive medo de me perder. talvez seja por isso que eu escrevo tanto. o tempo todo.
desde criança tenho cadernos com esses registros. num deles, no campo “pertence à”, está escrito “Anita (eu)”. quando pequena tinha medo de sofrer um acidente, perder a memória e esquecer quem eu era. por isso fazia questão de escrever que a Anita era eu.
vejo a escrita como um exercício de (re)afirmação, de memória, de descoberta, aceitação, negação — é um terreno vasto e fértil. e democrático: o faço encostada na bancada do trabalho, agachada no ônibus, estirada em minha cama.
é até meio compulsivo: no meio de uma briga lá estou eu pensando que palavras usar para colocar aquilo no papel. ou no meio da análise me perco: “uau, que frase maravilhosa vou anotar no meu caderninho”. a droga que é escrever.
à medida que escrevo, as coisas vão se transformando em mim — ora em algo de proporções gigantescas, pesadíssimo, ora em algo leve e simples. é como se eu criasse minha própria realidade a partir das palavras que escolho e do jogo de combinações que estabeleço.
discursos que criam realidades.
não, de nada tem a ver com aquela coisa mística, é muito mais algo como criar narrativas e fazer as pessoas (ou você) acreditarem nelas. é o poder do discurso, da linguagem. eu acho tão bonito. entendo tão pouco disso, mas acho tão bonito.
existem algumas palavras em japonês que não existem no português, é impossível fazer uma tradução que dê conta do seu significado, minha avó fala “é isso, mas não é bem isso”. ficamos sem saber o que sentir. então inventamos.