Tentativas de fuga

Tentativas de fuga: uma vida dentro e fora da arte / vida e arte

Lucy Lippard é uma escritora, crítica cultural, feminista e ativista norte-americana que durante toda a vida questionou (e ainda questiona) as fronteiras da arte. Há um bom tempo Lucy transita entre a crítica, a curadoria e a colaboração artística, e defende que a arte fuja do mundo da arte oficial e se encontre com a vida.

Excertos da entrevista concedida à Begoña Rodríguez:

BR: A crítica a satisfez a ponto de deixar de lado a ficção?
LL: Não, embora a minha ficção não seja muito boa… Levei doze anos para escrever um romance. Vim para a Espanha por uma temporada para trabalhar nisso. O meu romance se chama “Eu Vejo / Você significa”, o que não significa “Eu vejo o que você quer me dizer”, mas sim “Eu vejo e você dá sentido ao que eu vejo”. Tudo muito abstrato e com muitas influências da arte conceitual. Percebi que, embora não seja ruim, é muito difícil de ler, muito experimental. Preferia romances que contassem histórias, mas não conseguia escrevê-los, e a essa altura já estava imersa no mundo da arte, vivendo uma época muito emocionante.

BR: Porém, em várias ocasiões, você explicou que entende a crítica como uma forma de ficção. Na verdade, em certa medida, você ampliou a posição tradicional do crítico. Organizou sua primeira exposição, “Eccentric Abstraction”, em 1966 (na Fischbach Gallery, com obras de Eva Hesse, Alice Adams, Bruce Nauman, Louise Bourgeois, Gary Kuehn, Keith Sonnier, Don Pots, Frank Viner), quando não era comum que os críticos organizassem exposições, e considerou isso, então, “outra forma de crítica de arte”. Experimentou também a narrativa, aplicando liberdade conceitual aos seus textos, com estratégias como fragmentação, coleta de dados ou citações e sua apresentação quase sem comentários, imitações … Que renovação você queria?
LL: Na verdade, não pretendia renovar nada. Nunca me considerei uma “crítica”. Tudo o que sei aprendi com os artistas. Nunca fui adversária deles. Eu não queria ser uma artista, mas senti que estávamos tentando fazer coisas semelhantes. Era mais uma espécie de colaboração; eu não me mantia à margem escrevendo minhas críticas. Os artistas com quem convivia diziam “tudo o que fazemos é arte”, então concluí que se qualquer coisa que um artista faz é arte, qualquer coisa que um crítico faz é crítica. Fazia a curadoria de exposições, colaborava com artistas, escrevia coisas estranhas, e tudo era crítica, porque eu era crítica. Isso torna tudo mais simples. Mais tarde fiz histórias em quadrinhos, performances, teatro de rua, arte política, etc., mas não sou artista.

BR: Com que estratégias aborda uma obra ou um artista?
LL: Não tenho uma maneira definida de abordá-los. Não sei o que fazer para ser crítica porque não estudei nada, simplesmente convivia com essas pessoas. Gosto de arte contemporânea. Gostava de ver o que estava acontecendo nos estúdios e depois escrever sobre isso. Eu estava na hora certa no lugar certo. Quando comecei a escrever, utilizava um estilo muito poético, muito literário, para a crítica de arte. Nós, da minha geração, os “conceitualistas minimalistas”, não gostávamos desse estilo e éramos muito diretos, não utilizávamos tantas descrições. Nossa maneira de escrever era muito clara. Depois desse momento, veio um período dedicado à teoria, à linguagem incompreensível. Além disso, eu gostava de tentar adaptar minha escrita ao artista. Por exemplo, se eu estivesse escrevendo sobre Donald Judd, tratava de escrever como sua arte, e se fosse sobre outro artista, mudava meu estilo para me adaptar. Tentava fazer com que o texto seguisse as diretrizes da arte (Sol LeWitt repetia que a imitação é a maior das homenagens). Nunca acreditei que a crítica se sustentava por ela mesma, sempre a considerei em colaboração com a arte, com o artista. Outra coisa que eu gosto muito de fazer, mesmo que irrite as pessoas, é mudar de ideia. Escrevi um ensaio chamado “Consistency in Small Minds” porque alguém, não sei se Bertrand Russell, disse que “consistência é a prova de uma mente pequena”. Então decidi ser inconsistente. Também me parecia um desafio escrever sobre “coisas” visuais, porque é quase impossível escrever sobre a arte visual. Existe uma lacuna entre palavras e imagens que nunca pode ser preenchida. É um desafio interessante.

BR: Agora você prefere que a denominem com a expressão “crítica cultural”. Como você define esse termo?
LL: Comecei a usá-lo há quinze ou vinte anos, pois me parecia um termo mais amplo e gosto de entrecruzar disciplinas. Eu nunca fui uma artista. Tenho mestrado em história da arte, mas nunca quis ficar presa aí. O termo surgiu quando comecei a escrever mais sobre geografia cultural e questões antropológicas. Decidi deixar de me chamar de “crítica de arte” para me chamar de “crítica cultural”, assim teria mais espaço para me mover.

BR: Você reconhece que o feminismo mudou a sua vida em muitas esferas, inclusive na abordagem da crítica. Como foi esse encontro?
LL: Significou uma grande mudança. O tipo de crítica que desenvolvi baseava-se no minimalismo e no conceitualismo, e através de um estilo muito claro e direto, podendo-se denominar até “masculino”. Quando comecei a escrever sobre trabalhos realizados por artistas mulheres, quis ser mais acessível e mais emocional, como o trabalho de Eva Hesse. Se podia ser emocional dentro de uma estrutura que era mais minimalista ou mais formal, mas que permitia transpassar as emoções, e o feminismo me permitiu fazer o que eu queria de uma maneira diferente do que fazia no conceitualismo. Me deu uma estrutura através da qual pudesse escrever, porque antes sempre me sentia só; muitas vezes era a única pessoa com interesses políticos, a única mulher trabalhando em um campo muito masculino, embora houvesse várias mulheres no campo da crítica, e muito boas. Além disso, o feminismo tinha mais a ver com experiências vividas. As feministas eram muito mais autobiográficas. A maioria dos críticos não costuma escrever sobre eles mesmos, mas eu sim; tento não fazer com que minha escrita não fale somente sobre mim, mas uso minhas próprias experiências quando escrevo.

BR: Mas então, já se esgotou o debate sobre a tão controversa questão da “arte feminina”? O debate já foi finalizado, foi resolvido, ou ainda é necessário entrar nessa discussão? Essa discussão segue sendo necessária?
LL: A questão do gênero segue sendo uma questão muito importante, mas se tornou muito complicada. Agora não se trata apenas de mulheres. As reivindicações de gays e lésbicas nos proporcionaram uma transição muito positiva entre os gêneros. Acho que as pessoas estão menos interessadas no que pode ser chamado de “arte feminina” porque agora temos muitas camadas, a arte se converteu em algo muito complicado, e isso é bom. Quando começamos a criar essa arte, era algo totalmente novo. Me parece que as mulheres entenderam boa parte do que fazíamos e evoluíram para fazer outras coisas, para levar aquilo além. Não é mais uma questão de biologia, vestidos rosa e babados. No entanto, fico muito irritada quando ouço falar do “pós-feminismo”, pois ainda há questões que não foram resolvidas.

BR: Em 1970, você participou da ofensiva do “Ad Hoc Women Artists Committee” (uma ramificação da “Art Workers Coalition”) contra o Whitney Museum. Vocês publicaram um anúncio falso para o Whitney na imprensa, onde afirmavam que na exposição anual do museu (que levaria à famosa Bienal de Whitney em 1973) haveria 50% de mulheres. Criaram, também, convites falsos para a exposição e projetaram slides de mulheres sobre as paredes do museu. Todo final de semana, repetiam os bipes e os protestos, deixando ovos e absorventes internos pelas esquinas. Finalmente, conseguiram que o Whitney quadruplicasse a participação de mulheres naquele evento. Você consegue pensar em alguma ação espetacular para fazer agora?
LL: Os protestos de então pareceriam antiquados se se repetissem hoje, porém tem que haver novos caminhos… Talvez agora tudo tenha que ser digital! No início dos anos 1990, a “Women’s Action Coalition” organizava batucadas e fazia um grande alvoroço quando iam se manifestar em qualquer lugar. Muito barulho e bons ritmos! Assim conseguiam fazer com que todos prestassem atenção. Susan Lacy, nas performances que fez especificamente para a mídia [In Mourning and in Rage, 1977], criou algo como capítulos tratando de questões feministas, usou mulheres muito altas, com uma máscara e uma vara coberta por um pano preto. A imagem não era só de uma mulher de preto, mas de uma mulher de dois metros de altura vestida de preto, e a usamos várias vezes em manifestações no Colorado, acompanhando-a com um choro terrível, fazendo muito barulho. Assim nos apresentamos: dois metros de altura, vestidas de preto, com máscaras e acompanhados daquele grito terrível… Saímos duas vezes na primeira página dos jornais, em anos diferentes.

BR: As culturas periféricas vivem agora a mesma situação das mulheres antes dos anos sessenta e setenta?
LL: Claro. Nos últimos vinte anos, artistas globais de países da África, ou da China têm assumido posições no mundo da arte ocidental, comprovando, inclusive, que as culturas dominantes realizam uma triagem radical antes de deixar-los passar. O mesmo aconteceu com o feminismo, quando nem todas as artistas feministas conseguiram entrar no mundo da arte. Nem todos os artistas do continente africano conseguem. O poder continua a decidir quem entra e quem não entra; a situação colonial continua a existir.

BR: No prefácio que escreveu para o livro Contemporary Women Artists (1999), um compêndio de mais de 350 mulheres artistas, você se lembra de como no princípio do movimento feminista muitas acreditavam que dentro de uma década a artista mulher deixaria de ser definida por esse qualificativo para ser considerada simplesmente “artista” …
LL: Também pensei que em dez anos poderíamos mudar o mundo … e isso foi há trinta anos! Mas mudamos certas coisas.

BR: Seu empenho em tornar visível uma arte alternativa ao sistema vigente e o seu compromisso político tem produzido quais resultados?
LL: Acho que agora o sistema acabou aceitando muito mais coisas, então conseguimos algo. Os artistas conseguiram abrir o mundo da arte para aceitar mais conceitos; expandimos a definição de “arte” (digo no plural para me referir a todos nós que fizemos alguma coisa). Ao mesmo tempo, percebemos que vivemos em um sistema capitalista, que os muros ainda existem e que é muito difícil derrubá-los, embora existam portas. Há um fluxo maior de um lado para o outro do muro, mas o muro ainda segue sendo muito resistente.

BR: Você é uma otimista, então?
LL: Citarei Antonio Gramsci, que diz: “Pessimismo do intelecto, otimismo da vontade”. No momento, não é muito fácil ser otimista nos Estados Unidos. Estamos vivendo anos bastante alarmantes; tem uma onda muito séria de conservadorismo, muita censura. As forças conservadoras usaram o 11 de setembro para criar uma espécie de sociedade do medo.

Excertos de sua fala na 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil:

James Baldwin dizia que “o propósito da arte é desnudar as perguntas que as respostas esconderam”. Trata-se de um dom incrível… e de uma enorme responsabilidade. O mundo está em turbulência. Qual é o papel dos artistas engajados socialmente? Há muito tempo defendo que a arte fuja do mundo da arte oficial e se case com a vida – “as energias sociais ainda não reconhecidas como arte”. Escrevi esperançosamente sobre as “tentativas de fuga”, pessoas que trabalham com arte e tentam se libertar do mundo da arte. (Geralmente são atraídas de volta… como tem acontecido comigo repetidas vezes.) Muitos anos atrás, encontrei minha comunidade entre artistas que queriam fugir, aqueles que abriram caminho para fora do mundo da arte e em direção à vida.

A sustentabilidade tornou-se um slogan, um truísmo, destino de muitas ideias boas plantadas no terreno errado. Prefiro as expressões justiça ambiental ou justiça climática, que devem incluir justiça social. O que queremos sustentar? Certamente não o status quo. Que tal o planeta inteiro e tudo que existe sobre ele? Como fazemos isso por meio da arte? Parece que o mundo está só começando a entender que a sustentabilidade social está indissociavelmente associada à sustentabilidade ecológica, que é uma necessidade básica para a sobrevivência e para a arte como prática pública.

A arte pode agregar camadas visuais a debates globais. Sempre digo que quem trabalha com arte não pode mudar o mundo sozinho, mas, com os aliados certos, pequenos milagres podem acontecer. O trabalho duro e a organização podem estimular análises nítidas do que funciona e do que não funciona. Precisamos discutir os fracassos da arte com a mesma frequência com que alardeamos seus sucessos. Vivemos tempos que exigem amor sincero e honestidade com nós mesmos e com nossos colegas, pois ser eficaz é mais crucial hoje que em qualquer época de que me lembre, e venho trabalhando com essas questões há uns bons sessenta anos.

Então, mais uma vez: o que queremos dizer? Como queremos dizê-lo? E para onde vamos depois daqui? Obviamente, não tenho as respostas. Mas o trabalho que os artistas engajados socialmente estão fazendo hoje é ainda mais importante do que era ontem. Há uma linha tênue entre ceticismo e cinismo. Há quem diga que “o pessimismo é uma perda de tempo”, enquanto outros desdenham dos otimistas, dizendo que são utópicos ou politicamente reacionários. É verdade que precisamos estar fundamentados na realidade, mesmo que ela seja desagradável. Mas também precisamos de algo em que ter esperança, algo para ansiar, algo para buscar. Cito constantemente Antonio Gramsci: “Pessimismo do intelecto, otimismo da vontade.” Não creio que exista fórmula melhor.

Referências:
RODRÍGUEZ, Begoña. Intentos de Escapada / Entrevista con Lucy Lippard. Lapiz Revista Internacional de Arte, n. 214, jun. 2005.
(todos os trechos da entrevista com lucy lippard foram traduzidos livremente)

LIPPARD, Lucy R.. O que queremos dizer? Como queremos dizê-lo? In: BIENAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA SESC_VIDEOBRASIL, 21., 2019, São Paulo

Política Visual

É urgente que escrevamos sobre as imagens que queremos ver no mundo.

É urgente falar, pesquisar, referenciar, citar e escrever sobre a arte que nos atravessa.
Cansada das referências ocidentais e/ou brancas de sempre, passei a empreender uma busca por artistas que fugissem desse quadro. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar pouquíssimo material sobre várias delas. Surpresa? Por que a surpresa, Anita? É simples: quando não há quem escreva sobre, não há escrito. E quando não há escrito, bom, não há registro, não há memória, nem crítica. Não há visibilidade. Ou seja: se não há escrito, não há visibilidade, e se não há visibilidade, não há escrito. Entende como esse jogo é complexo e perverso?
Motivada por essa busca me deparei com o livro “Art On My Mind: Visual Politics” (“Arte Na Minha Mente: Política Visual”) de bell hooks e, é claro que, essa educadora, feminista, ativista e crítica cultural tem coisas importantes a dizer sobre o assunto.
bell hooks nos lembra como é possível admirar e nos deixar atravessar por um trabalho, ao mesmo tempo em que fazemos uma crítica rigorosa quanto ao quadro institucional através do qual o trabalho deste grupo é mais valorizado do que de outros grupos da sociedade.

“Infelizmente, artistas e críticos brancos e conservadores, que controlam a produção cultural da crítica de arte, parecem ter uma grande dificuldade em aceitar que é possível ser criticamente consciente da política visual — a maneira como raça, gênero e classe social moldam as práticas artísticas (quem faz arte, como é vendida, quem a precifica, quem escreve sobre) — sem abandonar um forte comprometimento com a estética.”

É importante nos atermos ao fato de que o mundo das artes foi construído através de políticas de supremacia branca, do capitalismo e do patriarcado.

“Políticas patriarcais no campo visual frequentemente garantem que trabalhos realizados por homens poderosos, incluindo homens não-brancos, recebam mais atenção e tenham mais voz do que trabalhos realizados por mulheres. Enquanto pensadoras feministas, de todas as etnias, têm feito intervenções críticas fervorosas para desafiar o mundo da arte e as práticas artísticas, muitos de seus inovadores trabalhos são usados, mas não citados, por homens.”

Para que consigamos mudar esse sistema precisamos modificar nossas condutas. A começar pelo direcionamento de energia e tempo:

“A maioria dos críticos de arte escreve sobre trabalhos que os atravessam profundamente. A natureza arbitrária de nossas escolhas me impressionou quando selecionei trabalhos para escrever sobre, para essa coleção. Duas das minhas obras de arte favoritas são de artistas homens brancos, Leon Golub e John Baldessari. Eu escolhi não escrever sobre essas obras desta vez, porque o trabalho desses dois artistas já tem recebido muitas críticas e atenção. Isso não significa que escrever sobre este trabalho sob a minha perspectiva não acrescentaria ao corpo de trabalho crítico que já existe; isto significa apenas que o uso do tempo, as escolhas que fazemos em relação ao que pensar e escrever sobre, fazem parte da política visual. Tenho esperança de que os ensaios incluídos aqui, em conjunto com o trabalho de outros críticos progressistas, representem atos de resistência crítica que, de fato, introduzam mudanças dentro da política visual existente. Conforme imaginamos criticamente novas maneiras de pensar e escrever sobre as artes visuais, à medida que criamos espaços para o diálogo além das fronteiras, nos envolvemos em um processo de transformação cultural que criará uma revolução na visão.”

Para que consigamos povoar mentes e corações precisamos povoar mentes e corações.

Referência:
HOOKS, bell. Introduction: Art Matters. In: HOOKS, bell. Art On My Mind. New York: The New Press, 1995.
(todos os trechos do livro de bell hooks foram traduzidos livremente)

OBSCENA

l’e origine du monde GUSTAVE COURBET
bobby masturbating NAN GOLDIN
diamanda galás ANNIE LEIBOVITZ
self-portrait FRANCESCA WOODMAN
untitled FRANCESCA WOODMAN
i could no longer play FRANCESCA WOODMAN
untitled #263 CINDY SHERMAN
untitled #335 CINDY SHERMAN
las piedras jamás CRISTINA DE MIDDEL
gentleman’s club CRISTINA DE MIDDEL
jimmy paulette and tabboo in the bathroom NAN GOLDIN
piotr taking his aids medication NAN GOLDIN
heart shaped bruise NAN GOLDIN
nan one month after being battered NAN GOLDIN

“Discutir a natureza e o sentido de obscenidade é quase tão difícil quanto falar de Deus” (MILLER apud CARLOS e D’AGORD). A palavra latina obscena é uma corruptela do vocábulo scena e seu significado literal é “fora de cena”. A obscenidade pode ser entendida como trazer para a cena algo que deveria estar (se está) fora dela. É transgredir. O obsceno tem a ver com o que não pode ser mostrado, com o que não pode ser falado — porém é sempre importante nos questionarmos: O que, e porque, não pode ser mostrado? Não pode ser mostrado/falado por quem/para quem? O obsceno funciona a partir da dialética do mostrar-ocultar, ou melhor, do ocultado-mostrado. É o desaparecimento-aparecimento seguido, novamente, do desaparecimento, afinal, o obsceno é o que se olha e, logo em seguida, faz virar o rosto — Quem vira o rosto?
O sexo per se não é obsceno, a morte também não. O real em estado bruto não é obsceno, para que algo seja considerado obsceno esse algo deve ser colocado diante de um indivíduo, revelado, através de uma voluntariedade artística ou comercial.

“O objeto ao ser desvelado, traz consigo o horror, uma vez que o olhar implica o desaparecimento do sujeito na cegueira. Um puro gozo está implicado diante do que não se pode ver. Isso ocorre quando o véu, o anteparo cai, como se o que deveria ficar fora da cena estivesse então presentificado. Logo o olhar que desvela o objeto é obsceno por colocar em cena o que ali não poderia estar, como ocorreu com Édipo, ao ver seus próprios olhos refletidos no chão” (CARLOS E D’AGORD). 

Alguns artistas exibem o que o espectador não consegue ver, se nega a ver, porém, ao mesmo tempo, tem prazer de ver. “Aquilo que nos dá acesso o artista é o lugar do que não pode ser visto” (LACAN apud CARLOS e D’AGORD). Fazendo com que, de alguma maneira, artista, obsceno e arte se complementem: o artista exibe o que é retirado de cena, o obsceno faz-se ver, força o olhar, enquanto a arte evoca e faz-se questionar.
Ao oferecer ao olhar o que não pode ser visto, o obsceno é um intermediário entre o real inacessível e a representação. É realidade e imaginação (ficção?), assim como a fotografia.

pas pu saisir la mort (1) SOPHIE CALLE

Referência:
CARLOS, Flávia Pinhal de; D’AGORD, Marta Regina de Leão. O lugar obsceno do suicídio. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, abr. 2016.

quando começamos a nomear as coisas

cê é muito gostosa. vamo pro meu quarto. vamo. tira minha roupa. isso, me beija todinha. ai, que gostoso, isso, que delícia. delícia. chupa mais devagarzinho. isso, vai, ai. hmmm, que tesão. vem cá. me chupa também. chupo. ai. hmmm. aaaaah. isso, continua. ahhhhh. safada. deixa eu pegar a camisinha. não. lembra do que eu te falei? hoje não. mas é só um pouquinho. não. vem cá, vamo continuar assim. isso. ahhh. gostosa. aaaaah. safada. gostoso. safada. ai. isso. aaaaah, gostoso. chupa minha bucetinha. isso. ai, que delícia. ai. só a cabecinha. não. vamo continuar aqui. isso. olha como você tá molhada. vamo só um pouco. não. para com isso. tá gostoso assim, não tá? tá. mas pode ficar melhor. mas eu já te disse que não. já te expliquei. deixa disso. isso, me beija. isso. isso. me deixa entrar em você. só um pouquinho. não. nossa, é tão difícil receber um não? é, é difícil receber um não. nossa, para com isso. já tá chato. tá bom, vem cá. vem cá, gostosa. hmmm. ahhhhh, que delícia.
(o peso do corpo rijo)

Será que é de bom tom se caracterizar como invejosa? Em uma entrevista de emprego: “Ai, eu sou proativa, perfeccionista, o que me atrapalha de vez em quando, confesso, e um pouquinho (fazendo sinal de pouquinho com os dedos) invejosa”. É, talvez isso pesaria na escolha do contratante. Mas porque, já que todo mundo é invejoso? Inveja é uma daquelas coisas que todo mundo já sentiu mas nega veementemente a sua existência. Ou quando não nega, fala que sentiu “inveja boa”: inveja boa é o caralho! Não existe inveja boa e não existe ser-humano bom. Pelo menos não 100% bom. A gente inveja uma coisinha aqui, uma coisinha acolá, imagina umas atrocidades algumas vezes ao dia e vida que segue. Eu tenho inveja da menina que vai para Argentina morar com o namorado, tenho inveja do casal que teve um filho de parto normal (ao som de Gilberto Gil!), tenho inveja do cara que tem os amigos mais divertidos, carnavalescos e unidos do mundo. Eu me imagino subindo no pescoço de uma professora e, posteriormente, me vingando a cada etapa profissional concluída com sucesso. Eu imagino pessoas que negam a existência de uma pandemia morrendo sufocadas. Eu gosto de ler histórias de mães desesperadas com seus filhos, querendo abandoná-los no meio de um bosque. Eu gosto de ler essas coisas. Eu gosto que me contem histórias como essas. São nesses momentos do dia em que eu respiro aliviada e penso: ufa!

O imaginário atua o tempo todo sobre mim. Eu não sei exatamente o que significa imaginário para Lacan, mas já ouvi muitas vezes essa palavra saindo da boca da minha psicanalista para se referir a algo que me aflige. Imaginário e fantasia. É tão recorrente que eu preciso de uns puxões para a realidade vez ou outra. Invento tanto que às vezes duvido da minha sanidade. E quando vejo, já me dei um diagnóstico: “Anita, você tem uma doença rara que se chama Síndrome de Misse”. Anne-Marie Misse foi uma jovem francesa que, na década de 80, foi diagnosticada com essa síndrome.
À primeira vista Misse era completamente normal, tinha uma vida normal, amigos, trabalho. Porém, chegado o momento em que ficava só, ela era dada a fantasias. Só fantasias. Era o imaginário que atuava. O caso se tornou público quando, após uma discussão com sua chefe, Anne-Marie pegou uma machadinha, objeto de uma instalação da galeria em que trabalhava, e tentou acertá-la na cabeça. Quando questionada pelas autoridades lhes contou uma história que envolvia a chefe, que segundo ela a perseguia, a rainha da Inglaterra (que naquela época já era Elizabeth II, ou Isabel II do Reino Unido para os portugueses) e seu negligente pai. O caso está descrito em minúcias no processo.
Misse, então, passou pelos mais variados testes psicológicos, foi ouvida por dezenas de psicanalistas, até chegar na mão do jornalista Claude De La Croix, que foi quem popularizou o caso de Anne-Marie e chamou a atenção de um dos maiores cientistas da época. Ele lançou o livro “Misse: O Imaginário Da Garota do Montmartre” (sim, o nome é meio óbvio, além de vir a ser meio clichê, afinal, Montmartre é o bairro onde se passa a história de Amelie Poulain — dizem até que Amelie foi inspirada, parcialmente, em Anne-Marie). No livro ele contava 127 histórias, magistralmente, narradas por Anne-Marie. Ao mesmo tempo em que pareciam ficções, de tão mirabolantes, eram passíveis de acontecer, eram histórias apuradíssimas. (Há tempos que a ficção vem substituindo a realidade, não é mesmo?).
Bom, após o diagnóstico e um breve histórico dessa Síndrome que atinge 1 em 1 milhão, a médica me prescreve o tratamento, e me lembra que não há cura para a doença. O tratamento consiste em doses diárias de realidade. Poxa, Doutora (ela tem um doutorado rs), a realidade já me esbofeteia diariamente… Não, não, quando digo realidade quero dizer corpo. Matéria. Você precisa viver experiências reais todos os dias. Coisas que te toquem, literalmente. Fazer uma caminhada em um parque e sentir o vento relando o seu corpo. Encontrar uma amiga e abraçá-la. Sair um pouco da sua cabeça e entrar no mundo real. Tudo bem, Doutora, mas e quando não puder fazer essas coisas? Bom, quando não puder, uma alternativa é transformar as histórias da sua cabeça em narrativas ficcionais. Passar para o papel. Inventar ainda mais. Só assim você dá escape a isso e a sua cabeça não implode. Sim, o efeito secundário, e mais radical, da doença é a sua cabeça implodir, mas fica tranquila, isso é muito raro.

O sol acariciava meu rosto. Coloquei a mão esticada diante de mim, notei que as pontas dos meus dedos atravessadas por ele criavam um vermelho-alaranjado. Meus dedos eram translúcidos. O vermelho-alaranjado era o sangue. Diferente do que os livros de biologia diziam o meu sangue não circulava por veias, artérias, capilares. Ele fluía solto pelo meu corpo. E meus órgãos, meus órgãos também ficavam soltos, boiavam. Eu era um grande açude de sangue. Vez ou outra dentro de mim se formava uma correnteza, causada pelo contato da minha água-sangue com o exterior. Às vezes pequenos acontecimentos criavam uma grande agitação sanguínea, fazendo com que meu coração fosse parar na cabeça. Com o coração na cabeça era difícil pensar. Aquele órgão do tamanho de um punho competindo espaço com o meu cérebro. Era difícil conciliar.
Enquanto lavava a louça e me esforçava para fazer a triagem — copos primeiro, seguido de pratos, facas, garfos, e por último as colheres; no escorredor as facas com as pontas para baixo, o resto dos talheres com as pontas para cima — o meu coração insistia em querer ocupar um espaço que não era o dele, então os talheres eram lavados sem metodologia alguma. Numa dessas vezes, ao colocar as facas com as pontas viradas para cima, dentro de um copo, me furei. Era sangue para todo lado. O meu dedo indicador esquerdo esguichava um sangue ralo. Sangue e água de uma correnteza. Precisava de algum recipiente para guardar todo aquele sangue, deixar ele se esvair pia abaixo seria um desperdício, o pior: a minha própria morte. Peguei um copo e apontei o indicador para seu interior. Em menos de quinze segundos ele estava cheio. Peguei outro copo: a mesma coisa. Um terceiro: idem.
Com a pressão do sangue saindo pelo dedo senti que o meu coração finalmente se ajeitou. Com ele boiando em seu lugar de costume ficava mais fácil pensar. Abri a geladeira e peguei um pedaço de bacon com couro. Coloquei o dedo em outro copo. Bati com a lateral da faca em toda sua extensão e puxei a ponta. Coloquei o dedo em outro copo. Cortei uma tira larga de couro (o suficiente para envolver toda a ponta do dedo furado). Coloquei o dedo em outro copo. Envolvi o dedo com o couro e os amarrei com um barbante. Pude sentir o sangue contido. Bebi os seis copos de sangue lá mesmo, encostada na pia da cozinha.

hoje eu queria ficar tão triste
que nem os tigres
me aguentariam

enxaguaria as louças
com a melancolia
de quem enterra um filho

meus olhos ficariam
tristes e caídos

e nem a palavra mais
foneticamente curiosa
me alegraria

.

.

.

maria ocaso

nono dígito

nove foi o número de vezes que gritei na sua cara enquanto um ônibus se aproximava. uma vez ele segurou minha cabeça com uma mão e tapou minha boca com a outra — se fosse hoje eu teria mordido. mas quem me garante que na terceira vez isso não pudesse se transformar na cena de um crime? chovia e tentamos mais de oito vezes nos escutar, mas o tempo não ajudava. na quarta vez tentei me lembrar de como ele costumava dançar: zero. tinha me esquecido completamente. oito vezes e nada. no dia 7 de junho parti.